PIU – Projecto de Intervenção Umana

Ninguém nos corta o PIU!

CORRUPÇÃO

LIBERDADE E PODER
O Público | O Privado | As Pessoas


O PIU nasce da vontade de mudar, da vontade de alertar consciências a um mundo cada vez mais controlado segundo ideais económicos e de poder, um mundo que se esquece dos deveres e direitos da humanidade, um mundo que já não sabe quem é e se deixa cegar por uma forte manipulação cujos objectivos estão aquém das nossas vidas. Mudar o cenário que se vive de uma falsa sociedade estável, de uma falsa democracia, da contínua desregulação financeira, de profunda insatisfação pelo abuso de poder, da desvalorização dos direitos humanos, da constante mentira que nos obrigam a comer, e da vontade de um povo submisso.


Podem ler sobre o contexto da nossa intervenção aqui.

Objectivos

A privatização é um conceito que atrai fortes reacções políticas, abrangendo um número de ideias, variando do razoável para o descontrolado impraticável. Mas será que a média geral dos portugueses realmente sabe o que significam as privatizações, para eles e para Portugal?

De que forma podemos utilizar o design (crítico & social) para chamar a atenção das pessoas e causar repúdio perante este cenário?

A nossa proposta pretende sensibilizar as pessoas para o que está a acontecer com empresas importantes portuguesas, fomentar a curiosidade para saber mais e fornecer uma plataforma (online) que as ajude, de facto, a conhecer os vários lados da privatização, oferecendo assim a possibilidade de formularem e fundamentarem a sua própria opinião.

Acção crítica, activa e pública

De forma a reflectir e agir sobre a bola de neve de corrupção que advém das privatizações em Portugal, pretendemos organizar várias acções públicas (em diferentes espaços) que terá como público alvo toda a população, nomeadamente os “clientes” das empresas em que nos iremos focar, incluindo também aqueles que já referimos como culpados desta situação.

A acção tem por base a criação e destribuição de panfletos, referentes a cada um dos casos que denunciamos, geralmente acompanhados com a personalização de um objecto que simbolize cada um deles.

Para a distribuição dos panfletos serão personalizados coletes para usarmos, de forma a simular o uniforme das empresas em que nos iremos focar, sendo que a acção se focará numa empresa por dia, durante uma semana (5 empresas, 5 dias-úteis da semana).

Possíveis locais de intervenção

  • Baixa-chiado

  • Cais do Sodré

  • Gare do Oriente

  • Marquês de Pombal

  • Terreiro do Paço

  • Saldanha

Materiais de comunicação

Para cada caso apresentamos uma proposta com diferentes suportes de actuação. A distribuição de panfletos é comum a todas as propostas e a ideia principal é utilizar a ironia para chamar à atenção a situação e o contexto social com que se relaciona. A mensagem nos panfletos será apresentada como uma espécie de celebração irónica da privatização e denúncia de corrupção que está associada a cada uma. Cada um dos panfletos terá um QR-code e o link para a plataforma online criada.

De forma a podermos imprimir um número significativo de panfletos, será necessário pedir apoio a algumas empresas (ou a um potencial investidor) que nos possam garantir o suporte dos custos de cada acção (por exemplo, a impressão para, no mínimo, 5.000 cópias – 1000 panfletos por empresa).

Exemplo – CTT

Os CTT são património público essencial à população. É uma empresa estatal que gera lucros anuais (das poucas) e tem um papel fundamental para as populações mais isoladas, que já perderam muitos outros serviços públicos. Sendo assim, os CTT não são uma empresa “incómoda” que dá prejuízos. É de notar o facto de ser o único meio de correspondência segura. A velha ideia de que as telecomunicações enterrariam os correios veio-se a provar mentira, sendo que não estão em perigo de extinção – embora o tráfego de cartas esteja a baixar consideravelmente, ainda existem muitos anos pela frente de cartas e encomendas a distribuir. Basicamente, a privatização dos CTT (Goldman Sachs e Deutsche Bank) só vem gerar lucro aos accionistas e reduzir os lucros do estado, enquanto que a nós nos mantém a ilusão de que conseguimos abater a tal dívida pública, o que é uma perfeita fraude.

“Parecendo estar a resolver agora um problema, o governo está de facto a hipotecar o futuro. Ao vender uma empresa como os CTT, não está a aliviar o Estado de qualquer fardo, porque que os CTT nunca o foram, ou de responsabilidades que podem não ser suas: estará vender Estado, ou seja, a passá-lo para outras mãos. (…) Mais grave ainda, estará a vender apenas o que é bom de uma boa empresa, preparando-se para fazer pagar aos portugueses a factura dos serviços sociais não rentáveis, que uma futura empresa privada não vai fazer sem a compensação adequada (…) Mas o governo estará também a fragilizar a democracia, ao tomar decisões que qualquer governo futuro, ainda que seja eleito com um programa ‘nacionalizador’, terá imensas dificuldades em reverter.” Agostinho Santos Silva

Exemplo do Objecto (Selo):

Exemplo do panfleto
Dentro do panfleto encontra-se a nossa mensagem e opinião (enunciadas anteriormente) relativamente à privatização dos CTT por parte da Goldman Sachs.

Frente
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Dentro
flyer_dentro

Plataforma online

A plataforma online, além de fornecer as últimas notícias sobre a privatizações (em português), pretende clarificar o significado da privatização enquanto ideia, teoria e retórica, como também como prática política. Disponibiliza-se ainda um espaço virtual que funcionará como um fórum, onde cada pessoa pode comentar e deixar a sua opinião sobre as privatizações e até sobre o próprio projecto em si. A plataforma será o resultado da intervenção a longo prazo, uma vez que os panfletos distribuídos remetem as pessoas para o website.

Secções plataforma online
– Últimas notícias das privatizações (exemplo http://newsmap.jp/)
– O que é a privatização? / O que significa? (vantagens, desvantagens, etc.)
– Que empresas são/estão a ser privatizadas em Portugal?
– Secção para petições públicas contra as privatizações
– Secção “Deixe aqui a sua opinião”
– Secção que documente a acção pública e enuncie os nossos objectivos

Página Facebook
Será também criada uma página no facebook, paralela à plataforma, que fará perdurar a acção crítica, convidando outras pessoas, a quem a mensagem não chegou, a visitarem o website. Nesta página serão divulgadas fotografias dos panfletos/objectos e da própria acção durante os 5 dias que se realiza. Também serão colocadas, ao longo do tempo, outras imagens e mensagens que criaremos de forma a dar longevidade a este projecto, aumentando o alcance de pessoas e, consequentemente, da nossa mensagem.

Considerações Adicionais

A resposta das empresas alvo da intervenção será invariavelmente digna de nota.
Se nos ignorarem isso validará a noção que estas empresas não se interessam de todo pelo povo português. Se tentarem parar com a intervenção como é que a imprensa retratará isso? Se apoiarem a nossa intervenção (possivelmente para ter alguma publicidade talvez de boa vontade) que julgamento será feito delas?

“Privatizaram a sua vida, o seu trabalho, a sua hora de amar e o seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, o seu pão e o seu salário. E agora não contentes querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.” Bertolt Brecht

Proposta de Marta Madeira, Teresa Freitas e Vasco Morgado

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Crítica-design-crítico

 Placebo project included a sofa that contained this shield against electromagnetic radiation. The furniture was put into use by ordinary families and served as a critical comment on the technology we surround ourselves with.

DUNNE & RABY; O projecto Placebo incluía um sofá (Electro-Draught Excluder) que continha um escudo contra a radição electromagnética. Esta peça seria colocada em casas de famílias comuns, servindo como um comentário crítico à tecnologia de que nos rodeamos todos os dias.

What’s it for? – “Mainly to make us think. But also raising awareness, exposing assumptions, provoking action, sparking debate, even entertaining in an intellectual sort of way, like literature or film”.

Quando se perguntou aos designers Anthony Dunne e Fionna Raby  o que era design crítico, concluíram a sua resposta ao dizer: é o oposto de design afirmativo: é design que reforça o statuos quo.

Esta parece-me uma óptima forma de o explicar, que não só se aplica ao design, mas a qualquer tipo de prática profissional; de facto, um dos problemas do mundo é o facto da maior parte das práticas, disciplinas e profissões serem afirmativas, em vez de críticas. Design, como normalmente conhecemos, sempre serviu a um maior estabelecimento e ajudou a reforçar o status quo. Até o design radical dos anos 70 acabou por só gerar algumas declarações contra o design, dentro do design, mas não assumiu um contexto mais amplo para enquadrar a sua prática “radical”.

Talvez por estas razões, os estudantes de design possam ser vistos como afirmativos e conformistas, em vez de pessoas críticas. Basta olhar para os protestos estudantis à volta do mundo, onde os artistas, por exemplo, têm uma presença mais forte, mas os designers não costumam ser vistos (pelo menos enquanto uma colectiva), com algumas excepções. Eventos mais recentes na Design Academy Eindhoven podem ser mais importantes do que se considera, e podem apontar um novo caminho para designers como praticantes críticos.

O design nunca foi considerado ser uma prática crítica… e não tinha sido provado o ser – de facto – até há poucos anos atrás. Hoje, o design crítico coloca questões sobre a nossa forma de viver e a maneira como as sociedades funcionam. É importante? claro que é.

Mas o pensamento crítico também se torna importante porque pode permitir aos designers elaborarem sistemas com papéis e funções radicalmente diferentes. Um desafio para o design participativo, por exemplo, é como a compreensão dos designers (e os utilizadores) do “espaço de possibilidades” pode limitar o que é criado. Ao sugerirem alternativas provocativas, os designs conceptuais produzidos pelo design crítico podem possibilitar os designers e utilizadores a explorar um “espaço de possibilidades” mais amplo, desenvolvendo produtos e sistemas realmente inovadores. No entanto, a teoria crítica tem sido criticada por promover pontos-de-vista elitistas para um “mundo melhor” a que a sociedade devia aspirar – o design crítico, da mesma forma, parece-me ter as mesmas aspirações, que podem ser vistas como uma resistência aos objectivos democráticos do design participativo.

No entanto, os produtos que surgem do design crítico não são explicitamente projectados para a manufactura e venda (são, até, normalmente encontrados em exposições), em vez disso, abrem um debate sobre o papel do design e os seus outputs. Nas palavras de Dunne & Raby:

“Critical Design uses speculative design proposals to challenge narrow assumptions, preconceptions and givens about the role products play in everyday life.”

Este “design para o debate” não é algo novo, designers italianos como da Archizoom e Superstudio criticavam a arquitectura e design contemporâneos desde os finais dos anos 60 [1].

The “Mies” chair reflects the ambivalent currents of this period (i.e., resuming production of tubular steel furniture despite mounting criticism of the Bauhaus and Functionalism)

A cadeira “Mies” (1969) reflecte sobre as correntes ambivalentes desse período (i.e., a produção de móveis em aço tubular apesar da crítica da Bauhaus e do Funcionalismo), comentando sobre a inadequação da estética moderna.

Enquanto alguns designers ligam o seu trabalho ao design crítico de Dunne, outros produzem artefactos para fins semelhantes, tal como os “produtos fictícios” da Human Beans e a “poética do design” dos produtos de Naylor & Ball [2]. Cada uma destas práticas de design crítico partilha uma intenção: a de propor uma reflexão da audiência nas suposições que apresentam. 

Sengers et al. estabelecem relações explicitas entre as suas abordagens e a teoria crítica; Dunne [3] descreve o design crítico relacionando-o com teorias críticas, citando (mas não elaborando) Geuss:

“Critical theories aim at emancipation and enlightenment, at making agents aware of hidden coercion, thereby freeing them from that coercion and putting them in a position to determine where their true interests lie.”

Na teoria crítica, as críticas são pontos de vista alternativos (teorias)  da sociedade, que pretendem uma mudança na mesma. Nas práticas de design crítico, os artefactos-enquanto-críticas incorporam possibilidades alternativas (práticas sociais, aplicações da tecnologia, etc.) que prentendem mudar o papel do design e dos seus produtos. Em ambos os casos, as críticas ocorrem através do envolvimento intelectual dos leitores/espectadores com as ideias que nelas são apresentadas. Este facto relaciona-se com a noção da teoria crítica da teoria enquanto algo que é ao mesmo tempo explicativo e constitui o mundo social – é mudar o mundo, e pensar nele de forma diferente.

Ao apresentarmos aos utilizadores artefactos que desafiam as suas suposições do que é possível, permitimos que reflictam na limitação involuntária de possibilidades e, consequentemente, permitir que os designers explorem um espaço mais amplo para ideias de design, que também possam ser relevantes para as necessidades existentes, futuras e disfarçadas dos utilizadores.

Apesar disto, o melhor aspecto que extraio do design crítico é de facto o seu foco no estudo do impacto e das possíveis consequências das novas tecnologias e políticas emergentes, das tendências sociais e ambientais, e como apresenta novos objectivos e áreas de interesse para os designers. Como explicam Dunne & Raby,

“we need to move beyond designing for the way things are now and begin to design for how things could be, imagining alternative possibilities and different ways of being, and giving tangible form to new values and priorities. Designers cannot do this alone, though, and the projects here benefit from dialogues and consultations with people working in other fields such as ethics, philosophy, political science, life sciences and biology.”

De facto, com a quantidade de questões globais na agenda e a globalização como uma condição para até a actividade mais mundana, há uma nova necessidade de questionar o estado actual do mundo. E é isso que o design crítico também deve fazer.

É normalmente esperado do design que ofereça soluções e ajuda a simplificar o mundo, de forma a torná-lo mais racional. Mas no meu ponto de vista, este é um discurso que o design crítico também tem que desafiar.

É importante perguntar: como é que o design crítico, enquanto teoria, se relaciona/equivale com a realidade? Será que os produtos e/ou conceitos resultantes do design crítico funcionam como deveriam? E será que há pessoas suficientes que estejam cientes da existência do design crítico?

DUNNE & RABY, Energy Gallery, The Science Museum, London, Teddy blood bag Radio, 2004. Photo Dunne & Raby

DUNNE & RABY, Teddy blood bag Radio (2004), desenhado para crianças. Uma forma mais amigável, para meter menos medo, mas que também traz a consciência de que o sangue veio de outro ser vivo.

Se o design crítico se mantiver (como na sua grande parte se tem mantido) em exposições, apenas mudará (ou não) um pequeno número de pessoas. É importante, então, levar o design crítico para o espaço público, atingindo um maior número de pessoas, fornecendo a possibilidade de uma maior reflexão sobre diferentes questões a que todos devem importar.

Notas:
[1] Branzi, A. (1984) The Hot House : Italian New Wave Design. Thames and Hudson
[2] Naylor, M. & Ball, R. (2005) Form follows idea: an introduction to design poetics. Black Dog
[3]  Dunne, A. (1999) Hertzian Tales – Electronic Products,  Aesthetic Experience and Critical Design. RCA CRD Research Publications

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I think, therefore I design

DESIGN THINKING

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“Design thinking” é um termo penetrante e persuasivo (para alguns) e a realidade alusiva que o acompanha, mesmo sendo inofensiva, é falsa. É a ideia de que os designers possuem um processo de pensamento criativo, inovador e místico, que os coloca num nível acima de toda a gente. 

É preciso notar ainda que já tivemos ideias revolucionárias e pensamento criativo ao longo da história, muito antes dos designers entrarem em cena. Quando examinamos o processo em detalhe, o que está a ser rotulado de “design thinking” é o que as pessoas criativas em todos os campos de estudo sempre fizeram, seja na ciência e engenharia, literatura e arte, música e história, etc. Não há falta de pessoas criativas neste mundo, pessoas com grandes ideias que desafiam o conhecimento convencional. Estas pessoas não precisam de afirmar que têm formas especiais de pensar, fazem apenas o que é natural para elas. Sim, os designers podem ser criativos, mas o facto é que não são de todo únicos nesse sentido.

Mas se calhar não há problema em deixarmos perpetuar este termo e ideia – acaba por ser uma maneira muito fácil de convencer as pessoas de que os designers fazem mais do que pôr as coisas bonitas, sendo que o papel de um designer ainda é muito confuso para grande parte da população. Há um certo valor em afirmar que temos uma arma secreta e poderosa, que ajuda a espalhar a palavra que os designers podem adicionar valor a qualquer tipo de – resolução de um – problema.

Então, penso que existe uma razão importante para abraçarmos este termo de “design thinking”, pois coloca o design noutra posição de uma forma única, forçando as empresas a verem o design de maneira diferente do que viam antes. O ênfase à palavra “thinking” ajuda a perceber que o design é mais do que uma cara bonita: tem substância e estrutura, e os métodos inerentes ao design podem ser aplicados a qualquer problema, são transversais.

Bruce Nussbaum, uma das “40 pessoas mais importantes no design” escreve como o “Design Thinking Is a Failed Experiment.” Há muitos prós e contras, como outros já elucidaram. Este “mestre do design” está agora a forçar uma nova metodologia e termo para resolver os problemas: a inteligência criativa, ou CQ (“Creative Quotient”), que é “the ability to frame problems in new ways and to make original solutions.” Parece-me não só vago, como também não diferente do que entendo por “design thinking”.

Percebo que Nussbaum está a tentar dizer que o termo foi e é utilizado excessivamente, que as pessoas estão a estragá-lo e que já não tem o mesmo significado que devia ter – e que o próprio processo está a ser perdido… mas o mesmo homem que declarou que a “‘Inovação’ morreu em 2008” afirma agora (em 2011) que o “Design thinking” está a morrer. Começo a ver um padrão. É melhor que a “Inteligência criativa” esteja atenta e aproveite a vida enquanto pode!

Mas de facto, o que interessa? A linguagem muda. Este tipo de palavras ganha e perde popularidade. Desde que os criativos e designers, e todos os outros, se permaneçam lógicos, abertos à colaboração, adaptáveis e comunicáveis, os problemas vão acabar por ser solucionados. Seja como quiserem rotulá-lo.

Como discutimos na aula, há de facto quem use este termo só como uma desculpa para dizer “vamos tornar-nos mais criativos, pintar as nossas paredes de amarelo, planear com post-its, e aí tornar-nos-emos mais inovadores!” mas o “design thinking” é, ou devia ser, o procurar algo em termos qualitativos, e não quantitativos. Acho que é sempre positivo procurarmos por novos significados, métodos e maneiras de fazer as coisas melhores (resultem ou não). Tem de facto a ver com trazer empatia, intuição, experimentação, etc., para o mundo dos negócios. E isso não é uma coisa má.

Para um designer, pode ser fácil pensar em “design thinking” como uma coisa óbvia, que nem devia existir enquanto termo, mas o facto é que existem muitas pessoas fora desta área que têm dificuldade em pensar neste tipo de coisas, por exemplo a necessidade de existir empatia com o consumidor. Se as pessoas querem tentar ser mais criativas, mais empáticas, e usarem as suas habilidades para desenvolver aspectos de observação e introspecção – óptimo! Os bons designers serão sempre bons designers e não sofrerão com isso, serão sempre precisos. Não nos preocupemos tanto com a terminologia das coisas.

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O livro está morto – Viva o livro!

This is not the End of the Book;
Uma conversa curada por Jean-Philippe de Tonnac, entre Umberto Eco e Jean Claude Carrière.

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ex-libris Biblioteca António Capucho (o meu avô)

Quando li o título deste livro, achei que se trataria de uma discussão sobre o aparecimento do livro digital, ou e-book, e como este afectaria (ou não) o futuro do livro impresso.

Estava enganada. 

Eco e Carrière estão desinteressados em falar sobre a lenta revolução do e-book/e-reader nos dias de hoje. De facto, Eco fala de como é difícil ler um livro no computador, mas ninguém menciona o Kindle ou o iPad, por exemplo. 

Esta obra reúne então uma série de conversas entre o autor Umberto Eco e o argumentista Jean Claude Carrière, abrangendo diferentes temas à volta do grande tema que é o livro: a história, o futuro, a religião, a educação, a escrita, etc. A discussão resulta numa absorção de entretenimento intelectual a um ritmo-acelerado, que brilha com pequenos desvios que fornecem informações “inúteis” e histórias/anedotas divertidas. 

São conversas sobre aprendizagem e conhecimento (e a diferença entre os dois), sobre a memória e a preservação de conteúdo, sobre a história e a navegação entre “a tempestade de informação” com que somos confrontados nos dias de hoje, e muito sobre a leitura, também.

É uma verdadeira Ode ao “livro-enquanto-objecto”, e se há coisa que sobressai é o entusiasmo de Eco e Carrière ao falarem sobre ele. Os dois apaixonaram-se por livros em crianças, e esse “entusiasmo infantil” transparece nas suas palavras – entusiasmo esse que penso estar presente na vida de cada coleccionador, seja o que ele coleccionar.

O meu avô era coleccionador de Cerâmica Portuguesa e de livros. É-me verdadeiramente impossível não pensar nele ao ler estas conversas.

antonio 2 001A sua biblioteca estava coberta de manuscritos, gravuras, mapas e livros com encadernações a ouro. Eram livros sobre a cultura Portuguesa, mais especificamente sobre a História da Arte Portuguesa (cerâmica, azulejaria, talha, etc.), História de Portugal e outros temas referentes a Portugal, como viagens de estrangeiros ao nosso país, ou tratados botânicos feitos por cientistas portugueses.

Ao folhear este livro vem-me à memória a sua imagem na secretária da sua biblioteca, com a lupa ao lado, envolvido na imensidão de estantes que cobriam, do chão ao tecto, as quatros paredes daquela sala. É curioso ver como Eco e Carrière falam do prazer de se colocarem entre os seus livros, observando-os, quase esperando absorver o seu conhecimento – o meu avô também o fazia.

Uma perspectiva do livro que emerge desta conversa é a de que o livro não é valioso como um objecto em si, porque nem todos os livros são bons ou obras-primas. O livro enquanto objecto não é suposto ser algo sagrado – para Eco o livro torna-se uma forma de armazenar informação cultural que escusamos de carregar connosco: o livro é “um frigorífico”.

Os livros têm sido, de facto, o principal método de transmissão de cultura, sendo que a ascensão dos media digitais, a digitalização dos arquivos e a fragilidade do armazenamento digital aparecem como ameaças à nossa herança cultural. No entanto, e como Eco aponta, a internet tornou a leitura uma capacidade mais necessária do que nunca. Segundo ele, “a internet traz-nos de volta ao alfabeto”, sendo assim inevitável que nos traga de volta à escrita e à leitura.

Mas se a internet e a tecnologia digital fornecem uma ameaça eminente à cultura é o facto de que não permitem esquecimento: todas as palavras do mundo e informação que nos fornecem estão sempre disponíveis – de forma desorganizada, não-mediada e não-filtrada. Como Eco sugere, a criação da cultura sempre precisou de esquecimento: os livros que não foram lidos, que não resistiram ao tempo, que estavam cobertos de teorias estranhas e erradas, etc.

Os dois homens preocupam-se assim com a falibilidade da informação online: “o que a internet fornece”, afirma Carrière, é “informação bruta, com quase nenhuma ordem hierárquica e com fontes não verificadas. Então, cada um de nós, precisa de não só de verificar os factos, mas também de criar significado”. Eco salienta que precisamos de aprender a “lidar com a informação cuja autenticidade já não podemos confiar” – aspecto que concordo plenamente.

Confesso: comecei por comprar este livro em formato digital. Isto porque quando escolhi o livro que queria ler, obter uma cópia impressa levaria pelo menos 2 semanas.
Não conseguia estar mais do que meia hora seguida a ler no ecrã, e estive quase a tirar print-screens a cada página para poder imprimir e ler em papel – como o próprio Carrière afirma, é engraçado notar que com o aparecimento das tecnologias, acabamos por imprimir mais coisas e gastar mais papel do que quando estas não existiam, ao contrário do que se possa pensar.

No entanto, ler este livro num ecrã não só foi alvo de distracção, como também me parecia um insulto, dado à repetida exaltação de coisas como os incunábulos, as encadernações, os papiros, as bibliotecas, etc.

Felizmente consegui obter uma cópia impressa a tempo. Finalmente conseguia rabiscar e marcar as páginas com factos que desconhecia ou com anedotas que não quero perder de vista, fazer pequenos apontamentos, sublinhar frases importantes – no fundo, estabelecer uma relação física com o próprio livro. Esta relação que se estabelece é uma das maiores razões para o fim do livro, a meu ver, ser impossível de imaginar.

Se por um lado sinto a necessidade de comprar certos livros (como os de ilustração, arte ou design), por outro sinto que não preciso de uma cópia impressa de um romance, ficando satisfeita em lê-lo digitalmente num Kindle ou noutro dispositivo móvel que servisse para o mesmo efeito. Se gostasse muito desse romance, aí sim compraria uma cópia impressa, para guardar na estante que à partida foi posta para colocar os meus livros preferidos.

Os e-books têm o seu lugar no mundo das letras, mas não é necessariamente um lugar de domínio. Como Eco afirma, “ou o livro continuará a ser o medium para ler, ou o seu substituto assemelhar-se-á ao que o livro sempre foi, mesmo antes da invenção da impressão”. Eco acerta na mouche quando prevê que qualquer que seja a forma que o futuro livro terá, terá que parecer (look and feel) como o livro tradicional impresso: “O livro é como a colher,  a tesoura, o martelo, a roda. Uma vez inventado, não pode ser melhorado”.

Então, a frase “o fim do livro”, como os autores demonstram, é um equívoco. Os livros impressos continuam a ser preferidos pela maioria como a melhor tecnologia para leitura – os formatos digitais rapidamente se tornam redundantes, e não são uma boa aposta para perdurarem mais no tempo do que os seus equivalentes impressos. Não há assim qualquer evidência que os livros físicos estejam em perigo de diminuir em valor.

Mas seja qual for o futuro dos livros, é importante que os designers se estendam aos novos paradigmas da edição que surgem com o aparecimento dos novos media de comunicação. Não deixando, obviamente, o livro físico de parte, é preciso reconhecer o e-book como um novo modelo editorial, que possibilita o designer a tornar-se um produtor/gestor de conteúdos no mundo dos novos media, marcando novamente uma posição quanto ao seu valor num mundo em que a auto-publicação está cada vez mais presente.

This is not the end of the book; não permanecerá na história como um clássico, ou como uma leitura obrigatória, mas também não o espera (nem o quer). A conversa entre os dois bibliófilos é em si uma propaganda para nos rodearmos de livros (Eco tem 50,000 títulos “modernos” e 1,200 “raros” espalhados pelas suas casas; Carrière tem 40,000 e 2,000, respectivamente). O que estas conversas nos relembram é que mergulharmos nos livros e no seu conteúdo deve ser uma coisa divertida, que se faz com prazer, uma aventura onde o inesperado está sempre à espera de ser descoberto. E enquanto esta atitude existir, os livros, sob qualquer forma, não estão em qualquer perigo de extinção.

Se o meu avô fosse vivo, falar-lhe-ia deste livro, mesmo que o mais provável fosse que ele não o lesse, já que a única coisa que refere -brevemente- sobre Portugal é a visita de Carrière à Biblioteca de Coimbra. Mas eu falaria dele com o mesmo entusiasmo que os autores falam sobre livros, porque me faz lembrar o meu avô e a sua imensa paixão. Especialmente por essa razão, este livro já está na minha estante.

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Sistema de Relações (Mindmap) e Objecto Editorial (Dream Work)

Teresa Freitas e Carolina Sacoto

A partir do trabalho realizado na primeira fase da cadeira de Projecto, concluímos que a ideia em comum a explorar seria o hipertexto, associado ao conceito de sonho. Como num sonho, encontramo-nos a saltar repentinamente de lugar em lugar (ligações internas e externas), ou a entrar em reinos bizarros e desconectados que baralham e quebram os processos do pensamento mas que ajudam a restruturar estes cenários, ao apresentá-los de novas maneiras mais compreensíveis.

A nossa publicação editorial torna uma forma desafiante, para se tornar algo mais do que um livro. É construído um espaço de sonho, onde a progressão linear e física de uma página pode tornar-se insignificante e onde tudo pode acontecer ao mesmo tempo. É através da forma deste livro que são representados os quatro aspectos do Dream Work (análise descrita na Interpretação dos Sonhos por Freud), relacionando assim o conceito de sonho com o de hipertexto. O leitor é convidado a experimentar e complementar este objecto, de forma a compreender a sua mensagem.

(Imagens do objecto ainda por colocar)

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#3 exploração hipertextual

A versão original pode ser vista aqui.

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Clica na imagem ou aqui para te levar ao labirinto do post #3.

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palavras-chave: hipertexto, hiperficção, narrativa, não-linearidade, interactividade.

Artigos seleccionados de The New Media Reader:
(também explorado) Bolter, J. D. Seeing and Writing (from Writing Space), 1991
Coover, R. The end of books, 1992
Nelson, T.  Proposal for a Universal Electronic Publishing System and Archive (from Literary Machines), 1981

Referências bibliográficas:
Barthes, R. From work to text, 1971.
Barthes, R. S/Z: an essay. Siglo XXI, 1980.
Barthes, R., The death of the authorImage, music, text, 1977.
Bolter, J., Literature in the electronic writing spaceLiteracy online: The promise (and peril) of reading and writing with computers, 1992, 19-42.
Bolter, J.; Grusin, R. & Grusin, R. A.,  Remediation: Understanding new media. MIT Press, 2000.
Bolter, J., Writing Space: The Computer, Hypertext, and the History of Writing, 1991.
Derrida, J. Of grammatology. JHU Press, 1998.
Hayles, K. Writing machines. The MIT Press, 2002.
Kittler, F., Discourse Networks 1800/1900. Stanford University Press, 1992.
Kress, G. & Van Leeuwen, T.,  Multimodal discourse: The modes and media of contemporary communication, 2001.
Murray, J., Hamlet on the holodeck: The future of narrative in cyberspace. SimonandSchuster.com, 1997.
Packer, R. & Jordan, K. (ed.). Multimedia: From Wagner to virtual reality. WW Norton & Company, 2002.

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