This is not the End of the Book;
Uma conversa curada por Jean-Philippe de Tonnac, entre Umberto Eco e Jean Claude Carrière.
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ex-libris Biblioteca António Capucho (o meu avô)
Quando li o título deste livro, achei que se trataria de uma discussão sobre o aparecimento do livro digital, ou e-book, e como este afectaria (ou não) o futuro do livro impresso.
Estava enganada.
Eco e Carrière estão desinteressados em falar sobre a lenta revolução do e-book/e-reader nos dias de hoje. De facto, Eco fala de como é difícil ler um livro no computador, mas ninguém menciona o Kindle ou o iPad, por exemplo.
Esta obra reúne então uma série de conversas entre o autor Umberto Eco e o argumentista Jean Claude Carrière, abrangendo diferentes temas à volta do grande tema que é o livro: a história, o futuro, a religião, a educação, a escrita, etc. A discussão resulta numa absorção de entretenimento intelectual a um ritmo-acelerado, que brilha com pequenos desvios que fornecem informações “inúteis” e histórias/anedotas divertidas.
São conversas sobre aprendizagem e conhecimento (e a diferença entre os dois), sobre a memória e a preservação de conteúdo, sobre a história e a navegação entre “a tempestade de informação” com que somos confrontados nos dias de hoje, e muito sobre a leitura, também.
É uma verdadeira Ode ao “livro-enquanto-objecto”, e se há coisa que sobressai é o entusiasmo de Eco e Carrière ao falarem sobre ele. Os dois apaixonaram-se por livros em crianças, e esse “entusiasmo infantil” transparece nas suas palavras – entusiasmo esse que penso estar presente na vida de cada coleccionador, seja o que ele coleccionar.
O meu avô era coleccionador de Cerâmica Portuguesa e de livros. É-me verdadeiramente impossível não pensar nele ao ler estas conversas.
A sua biblioteca estava coberta de manuscritos, gravuras, mapas e livros com encadernações a ouro. Eram livros sobre a cultura Portuguesa, mais especificamente sobre a História da Arte Portuguesa (cerâmica, azulejaria, talha, etc.), História de Portugal e outros temas referentes a Portugal, como viagens de estrangeiros ao nosso país, ou tratados botânicos feitos por cientistas portugueses.
Ao folhear este livro vem-me à memória a sua imagem na secretária da sua biblioteca, com a lupa ao lado, envolvido na imensidão de estantes que cobriam, do chão ao tecto, as quatros paredes daquela sala. É curioso ver como Eco e Carrière falam do prazer de se colocarem entre os seus livros, observando-os, quase esperando absorver o seu conhecimento – o meu avô também o fazia.
Uma perspectiva do livro que emerge desta conversa é a de que o livro não é valioso como um objecto em si, porque nem todos os livros são bons ou obras-primas. O livro enquanto objecto não é suposto ser algo sagrado – para Eco o livro torna-se uma forma de armazenar informação cultural que escusamos de carregar connosco: o livro é “um frigorífico”.
Os livros têm sido, de facto, o principal método de transmissão de cultura, sendo que a ascensão dos media digitais, a digitalização dos arquivos e a fragilidade do armazenamento digital aparecem como ameaças à nossa herança cultural. No entanto, e como Eco aponta, a internet tornou a leitura uma capacidade mais necessária do que nunca. Segundo ele, “a internet traz-nos de volta ao alfabeto”, sendo assim inevitável que nos traga de volta à escrita e à leitura.
Mas se a internet e a tecnologia digital fornecem uma ameaça eminente à cultura é o facto de que não permitem esquecimento: todas as palavras do mundo e informação que nos fornecem estão sempre disponíveis – de forma desorganizada, não-mediada e não-filtrada. Como Eco sugere, a criação da cultura sempre precisou de esquecimento: os livros que não foram lidos, que não resistiram ao tempo, que estavam cobertos de teorias estranhas e erradas, etc.
Os dois homens preocupam-se assim com a falibilidade da informação online: “o que a internet fornece”, afirma Carrière, é “informação bruta, com quase nenhuma ordem hierárquica e com fontes não verificadas. Então, cada um de nós, precisa de não só de verificar os factos, mas também de criar significado”. Eco salienta que precisamos de aprender a “lidar com a informação cuja autenticidade já não podemos confiar” – aspecto que concordo plenamente.
Confesso: comecei por comprar este livro em formato digital. Isto porque quando escolhi o livro que queria ler, obter uma cópia impressa levaria pelo menos 2 semanas.
Não conseguia estar mais do que meia hora seguida a ler no ecrã, e estive quase a tirar print-screens a cada página para poder imprimir e ler em papel – como o próprio Carrière afirma, é engraçado notar que com o aparecimento das tecnologias, acabamos por imprimir mais coisas e gastar mais papel do que quando estas não existiam, ao contrário do que se possa pensar.
No entanto, ler este livro num ecrã não só foi alvo de distracção, como também me parecia um insulto, dado à repetida exaltação de coisas como os incunábulos, as encadernações, os papiros, as bibliotecas, etc.
Felizmente consegui obter uma cópia impressa a tempo. Finalmente conseguia rabiscar e marcar as páginas com factos que desconhecia ou com anedotas que não quero perder de vista, fazer pequenos apontamentos, sublinhar frases importantes – no fundo, estabelecer uma relação física com o próprio livro. Esta relação que se estabelece é uma das maiores razões para o fim do livro, a meu ver, ser impossível de imaginar.
Se por um lado sinto a necessidade de comprar certos livros (como os de ilustração, arte ou design), por outro sinto que não preciso de uma cópia impressa de um romance, ficando satisfeita em lê-lo digitalmente num Kindle ou noutro dispositivo móvel que servisse para o mesmo efeito. Se gostasse muito desse romance, aí sim compraria uma cópia impressa, para guardar na estante que à partida foi posta para colocar os meus livros preferidos.
Os e-books têm o seu lugar no mundo das letras, mas não é necessariamente um lugar de domínio. Como Eco afirma, “ou o livro continuará a ser o medium para ler, ou o seu substituto assemelhar-se-á ao que o livro sempre foi, mesmo antes da invenção da impressão”. Eco acerta na mouche quando prevê que qualquer que seja a forma que o futuro livro terá, terá que parecer (look and feel) como o livro tradicional impresso: “O livro é como a colher, a tesoura, o martelo, a roda. Uma vez inventado, não pode ser melhorado”.
Então, a frase “o fim do livro”, como os autores demonstram, é um equívoco. Os livros impressos continuam a ser preferidos pela maioria como a melhor tecnologia para leitura – os formatos digitais rapidamente se tornam redundantes, e não são uma boa aposta para perdurarem mais no tempo do que os seus equivalentes impressos. Não há assim qualquer evidência que os livros físicos estejam em perigo de diminuir em valor.
Mas seja qual for o futuro dos livros, é importante que os designers se estendam aos novos paradigmas da edição que surgem com o aparecimento dos novos media de comunicação. Não deixando, obviamente, o livro físico de parte, é preciso reconhecer o e-book como um novo modelo editorial, que possibilita o designer a tornar-se um produtor/gestor de conteúdos no mundo dos novos media, marcando novamente uma posição quanto ao seu valor num mundo em que a auto-publicação está cada vez mais presente.
This is not the end of the book; não permanecerá na história como um clássico, ou como uma leitura obrigatória, mas também não o espera (nem o quer). A conversa entre os dois bibliófilos é em si uma propaganda para nos rodearmos de livros (Eco tem 50,000 títulos “modernos” e 1,200 “raros” espalhados pelas suas casas; Carrière tem 40,000 e 2,000, respectivamente). O que estas conversas nos relembram é que mergulharmos nos livros e no seu conteúdo deve ser uma coisa divertida, que se faz com prazer, uma aventura onde o inesperado está sempre à espera de ser descoberto. E enquanto esta atitude existir, os livros, sob qualquer forma, não estão em qualquer perigo de extinção.
Se o meu avô fosse vivo, falar-lhe-ia deste livro, mesmo que o mais provável fosse que ele não o lesse, já que a única coisa que refere -brevemente- sobre Portugal é a visita de Carrière à Biblioteca de Coimbra. Mas eu falaria dele com o mesmo entusiasmo que os autores falam sobre livros, porque me faz lembrar o meu avô e a sua imensa paixão. Especialmente por essa razão, este livro já está na minha estante.