A perfeição não existe

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Ser humano significa cometer erros, para que os erros não aconteçam novamente.
Se a tecnologia nos impedir de fazer erros, como é que o ser humano lidará se a tecnologia falhar?

Evegeny Morozov diz que os avanços tecnológicos fizeram-nos render parte da nossa humanidade à máquina, e que continuaram a fazê-lo, resultando em consequências catastróficas para a humanidade.

No entanto, o maior risco da perfeição é o facto desta não existir. O próprio termo define-se como um estado que ninguém, nunca, pode atingir. A consistência, no entanto, é algo que pode ser melhorado com a tecnologia (por exemplo fazer com que uma cirurgia complicada seja mais fácil de executar). A escolha não está em descobrir soluções para problemas, está no facto de procurarmos ou não soluções para problemas que “não existem” ou para problemas que enriquecem a nossa natureza humana. Um exemplo simples é o do corrector ortográfico no Word, que faz com que não seja necessário lembrar-me como se escreve uma palavra, ou mesmo a calculadora, que me fez esquecer como se faz uma divisão.

O autor faz referência a Sillicon Valley e diz, resumindo, que o objectivo deste conjunto de empresas é fazer com que os humanos sejam mais como máquinas, porque estas podem ser perfeitas.
No entanto, a meu ver, Sillicon Valley está repleto de pessoas que contribuem para o avanço tecnológico porque gostam de desafios técnicos, desafios competitivos, e têm verdadeira alegria em criar – não porque vêem a humanidade e a falta de perfeição como um problema à espera de ser solucionado. Acredito que sejam motivadas para ajudar com o progresso de problemas práticos – mas a tecnologia não será sempre uma solução, pode ser simplesmente uma ajuda.

Será que devemos ignorar o progresso, mesmo quando está motivado pelo desejo de sucesso financeiro?

Morozov vê benefícios escondidos nos problemas que Sillicon Valley tenta resolver, como por exemplo o problema do tédio levar a criatividade, e as experiências desagradáveis fornecerem novas perspectivas.
A um certo nível, está certo: quando a vida está em autopiloto, não temos a oportunidade de nos provarmos a nós mesmos, para lidarmos com um problema, para crescermos. Mas as soluções apresentadas não são equivalentes a um autopiloto e de certa forma libertam-nos para nos podermos concentrar no próximo problema.

O autor introduz a solução ao problema do esquecimento através da utilização do Google Glass. Como Proust e Morozov dizem, a memória é mais que uma simples gravação cinematográfica de eventos passados – é uma parte essencial da nossa humanidade. Se perdemos a necessidade de nos lembrarmos, também perdemos a habilidade de o fazer.

No entanto, esta visão e outras previsões de Morozov parecem-me exageradas. Dentro do cérebro e psique do ser humano há um pedaço de moral que se revoltará contra o tipo de automatismo completo presente nestas previsões. Acredito ainda que a maior parte dos problemas que são “resolvidos” pela tecnologia, pertencem à tecnologia. Por exemplo, comprámos telefones para ser mais fácil contactarmos alguém quando é necessário, mas rapidamente se tornou necessário estar em contacto com as pessoas a toda a hora. Os Google Glass, smartphones e outras tecnologias enriquecem a experiência humana ao impulsioná-la para a frente. A falibilidade, falhas e medos que as pessoas têm agora até podem desaparecer, mas só porque vão ser substituídos por outras numa condição humana mais “avançada”.

O problema da opinião de Morozov, para mim, é o facto de abordar um assunto de uma maneira que é no fundo pessimista. Parece ficar no lado errado da história, cuja visão é, de certa forma, “velha”.

Vejamos o exemplo da Internet, que criou uma plataforma que tornou possível a troca de informação e a ligação entre indivíduos à volta do planeta. No entanto, esta mudança – enorme – não destruiu a identidade humana ou a sociedade. O que resultou foi uma criação de uma nova identidade, de uma nova cultura.
Também eu tenho o impulso de olhar para a geração mais nova e ver como se comportam, por exemplo na Internet. A minha maneira de fazer as coisas é a melhor, mais esperta, mais verdadeira. Eu é que estou certa na maneira como devemos viver. A isto chama-se ego, ao idealizarmos a nossa maneira de fazer as coisas, minimizando como o futuro pode ser melhor.  Afirmarmos que o caminho que fazemos é melhor do que o que vamos fazer, é em grande parte um simples juízo de valor, e de certa forma, é apenas um palpite.

Haverá sempre medo com o progresso, e haverá sempre pessoas que terão dificuldade em abraçar avanços drásticos na tecnologia, mas este medo existe desde que os seres humanos começaram a compreender a evolução. O medo não é, no entanto, uma desculpa para esconder, rejeitar ou suprimir estes avanços.

 We’re as smart as we want to be.

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