design de comunicação e novos media

#1 sem começo, sem fim

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Página do livro I Ching (Book of Changes) que data até ao século III a.C.. Um texto composto por várias camadas, sobrepostas ao longo do tempo, onde um procedimento aleatório gera um dos 64 possíveis significados, com sobreposições de interpretação. Inspirou artistas como John Cage, e.g. Music Of Changes, onde utiliza decisões feitas a partir do livro para os sons, durações, dinâmica, andamento, etc. desta composição musical.

Em julho de 1945, Vannevar Bush [1] publica o artigo As We May Think. Neste, o autor propõe a criação de um aparelho que chamou de memex [2], que criaria ligações entre dois pedaços de informação.

“The process of tying two items together is the important thing” escreveu Bush, prevendo as hiperligações (hyperlinks), “This is the essential feature of the memex”.

No entanto, o aspecto mais impactante do memex – o seu potencial para reorganizar radicalmente a valorização e tratamento da informação, podendo relacioná-la – era tratado por Bush como uma simples parte de um sistema que tinha, acima de tudo, a intenção de facilitar a partilha e propagação de informação para promover o progresso científico – o que acabou por ser a mesma motivação por de trás da criação da World Wide Web nos anos 90. O memex é, no fundo, o conceito pioneiro para todos os sistemas de hipertexto [3].

Quatro anos antes do artigo de Bush, o poeta, crítico e escritor Jorge Luis Borges [4] publicou The Garden of Forking Paths, que se considera um dos primeiros exemplos de hiperficção (hypertext fiction) [5]. Neste conto, Borges explora o tema de realidades alternativas, e a bifurcação de uma narrativa no espaço e tempo:

“an infinite series of times, in a growing, dizzying net of divergent, convergent and parallel times” – uma definição possível para o hipertexto.

Borges queria que o seu trabalho replicasse a ideia de labirinto – os leitores deviam ser “largados” em qualquer momento da história e serem forçados a procurar o seu caminho de ponto a ponto.

A Internet tornou o hipertexto e as hiperligações em ideias tão comuns, que pode ser difícil apreciar as inovações de Borges. Em 1975, o autor cria o conto El libro de arena, que descreve um livro onde “o número de páginas é exactamente infinito. Nenhuma página é a primeira, nenhuma é a última”.
Esta ideia de livro infinito é facilmente relacionada com a visão de Bush na criação do memex. Os pensamentos dos dois autores acabam por convergir para este mesmo objecto: um livro que, dentro de um espaço finito, pode conter uma quantidade de informação infinita – ou, pelo menos, indeterminada e infinitamente extensível.
Na introdução ao The New Media Reader, Lev Manovich escreve sobre as semelhanças entre os dois ao dizer que

“Both contain the idea of a massive branching structure as a better way to organize data and to represent human experience”

Poema de Su Hui, no período dos Dezasseis Reinos (entre 304 – 439), chamado “Xuanji Tu”. Este poema é um palíndromo (ou “huiwen shi”) que pode ser lido em todas as direcções, com 2,848 resultados diferentes.

Embora Bush acreditasse que, durante a sua época, as máquinas complexas, confiáveis e com partes substituíveis pudessem ser construídas, nunca viu o memex a ser construído. A ideia de um “livro mágico” estava no ar, pronta para ser utilizada novamente, mas a tecnologia não podia construí-la, ainda.

“When data of any sort are placed in storage, they are filed alphabetically or numerically, and information is found (when it is) by tracing it down from subclass to subclass (…) The human mind does not work in that way. It operates byassociation. With one item in its grasp, it snaps instantly to the next that is suggested by the association of thoughts, in accordance with some intricate web of trails carried by the cells of the brain.”

Com a ideia de indexação associativa, o memex de Bush influenciaria a criação de sistemas de hipertexto, com profundo impacto em Douglas Engelbart, mais conhecido por ser o criador do mouse e creditado como pioneiro na computação interactiva e hipermedia [6], bem como Ted Nelson, que cunhou os próprios termos “hipertexto” e “hipermedia”. Nelson, em 1960, criou o primeiro projecto hipertexto, o Project Xanadu, referido pela revista Wired como um “projecto que era suposto ser uma biblioteca universal que ajudaria a fazer com que a vida dos humanos evoluísse para algo inteiramente diferente”.

Ted Nelson partilhava também a maneira de pensar de Borges. Definiu o hipertexto, no seu livro Literary Machines, como um tipo de “escrita não-sequencial – um texto que se ramifica e permite a escolha do leitor, melhor lido num ecrã interactivo. Esta série de blocos de texto está ligada por links que oferecem ao leitor diferentes caminhos”. Esta descrição é rapidamente associada à análise da escrita por Borges em The Garden of Forking Paths, onde escreve que

“In all fictional works, each time a man is confronted with several alternatives, he chooses one and eliminates the others (…) He creates, in this way, diverse futures, diverse times which themselves also proliferate and fork”

Na obra The Library of Babel de Borges é descrita uma biblioteca que é preenchida com quantidades infinitas de informação, mas que não possui qualquer tipo de organização – o que faz com que esta quantidade de conhecimento seja, de certa forma, inútil. Este aspecto é comparável ao início da World Wide Web, o melhor e maior exemplo para hipertexto e, como não podia deixar de ser, à visão e solução oferecida pela criação do memex.

Google doodle homenageia Jorge Luis Borges

A emergência do Google nos anos 90, cuja missão foi, e ainda é, organizar a informação do mundo, tornando-a universalmente acessível e útil – trazendo ordem ao caos – acaba por ser uma influência directa das ideias de Borges e Bush.

A geração de pensadores que inspiraram criou o hipertexto.

Mais que tudo, estes dois autores introduziram ideias que se traduzem na superação das limitações da linearidade, possibilitando a representação do pensamento numa reconstrução ou desconstrução sistemática, muitas vezes colectiva, do texto e da compreensão da narrativa linear. A ruptura com o linear é vista como uma ruptura no pensamento e, no entanto, conseguimos assimilar estas novas estruturas sem perder o poder da concentração e de envolvimento – que acabam por não ser tão lineares assim, ao contrário das nossas expectativas.

Borges e Bush introduzem um novo pensamento que é contemporâneo no design, o da desconstrução ou decomposição dos elementos da escrita (e.g. desconstrutivismo; pós-estruturalismo), descobrindo novos lados e sentidos do texto impresso. Ao quebrar a linearidade de um texto e do pensamento os autores propõem, assim, novas formas de leitura e novas formas de passar uma mensagem, questionando todos os mecanismos da comunicação. As suas teorias, percepções e visões possibilitaram um enriquecimento do conhecimento, que pode ser acedido de formas completamente diferentes.

Os textos podem também passar a reivindicar a não-presença do autor, onde é mudado o posicionamento de cada leitor, que passa a ter uma participação activa na narrativa e acaba por construir o seu próprio texto, liberando-o para uma pluralidade de sentidos e de outras realidades.

Alguns dos pensadores influenciados pelos autores fundaram a Oulipo, uma corrente literária de escritores e matemáticos que procuravam maneiras de criar obras através de técnicas de escrita constrangida. Um destes escritores foi o poeta e escritor francês Raymond Queneau.

Cent Mille Milliards de Poèmes

Cent Mille Milliards de Poèmes, de Raymond Queneau (presente na expo Infinite tasks. When art and book unbind each other da Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012) possui dez sonetos de dez linhas com o mesmo esquema rimático, e que podem ser combinados de 10 formas diferentes. Quenau é também autor de Un Conte à votre façon, inspirado pela apresentação de instruções dadas a computadores, sendo um pioneiro no estilo dos Game books [7], ou Choose your own Adventure books, ideia especulada pela primeira vez por Jorge Luis Borges.

Os conceitos de hipertexto e a interactividade disponível nos computadores trouxeram ainda novas possibilidades à narrativa digital/electrónica. Em Hamlet on the Holodeck: The Future of Narrative in Cyberspace, Janet Murray diz que a narrativa digital combina

 “participating with immersion, agency with story, and [requires the] perceiving of patterns in a kaleidoscopic fictional world”

Na visão de  Murray, o texto existe menos como um aparelho para produzir colaboração do ser humano e máquina, mas sim um canal para uma experiência imersiva e estética que convida a participação dos leitores. Complementando esta ideia, Jay Bolter, em Writing Space: The Computer, Hypertext, and the History of Writing, define a ficção interactiva (ou hiper-ficção) como uma escrita electrónica que contém episódios ou tópicos, conectados por pontos de decisão ou links.

Um bom exemplo para estas definições é o jogo de realidade alternativa We Tell Stories (2008) da editora Penguin, onde 6 autores contribuíram com histórias interactivas para o projecto, que são exibidas num website (e.g. The (Former) General In His Labyrinth).
Os primeiros jogos de aventura para o computador eram também baseados em texto, onde se ofereciam ao utilizador várias alternativas para proceder ao longo deste ambiente textual (e.g. The Witness: An INTERLOGIC Mystery), ideia bem implementada por Borges na obra The Garden of Forking Paths.

 À medida que o medium digital e a maneira de lidarmos com informação mudam, há cada vez mais exemplos de maneiras não-lineares para transformar o tradicional medium linear. Podemos ver como Jorge Luis Borges e Vannevar Bush tiveram, assim, uma profunda influência nos dias de hoje, e consequentemente nos Novos Media, ao consolidar a tecnologia e conceito de hipertexto.  A visão inicial deste conceito acabou por ser completada nos dias de hoje através da World Wide Web.

Como conclusão destas ideias, introduzo a descrição do termo “hipertexto” por Michael Heim, em The Metaphysics of Virtual Reality, que o descreve como uma ferramenta que nos permite usar a palavra como base para uma tecnologia que estende o alcance da escrita e remove o texto da dimensão única que tem numa página impressa.

palavras-chave: desconstrução, não-linearidade; hipertexto; hipermedia; hiperligação; hiper-ficção; interacção, narrativa digital; world wide web; mensagem

Notas:

[1]Bush era conselheiro na área científica do presidente Franklin D. Roosevelt, sendo uma peça-chave no desenvolvimento da bomba atómica. À medida que a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim, Bush tornou-se ansioso para melhorar o futuro da humanidade.
[2]Um sistema que não só oferecia suporte como melhorava a memória humana de uma maneira eficiente, mais que a palavra impressa. Um mecanismo inteligente para guardar e recolher informação.
[3] Um hipertexto é tanto um conceito como uma tecnologia, e não um produto. A definição comum afirma que é um texto que contém links para outros textos.
[4]No NMR, Nick Montfort escreve sobre a influência de Borges no desenvolvimento do hipertexto “Writers using the computer as a medium have found many types of inspiration in the work of Borges (…) In structuring works, they have looked not only to ‘The Garden of Forking Paths’ but also to combinatorial ideas and notions of textual infinity found in ‘The Library of Babel’ and ‘The Book of Sand”.
[5]Termo para descrever textos onde uma narrativa não-linear e interactiva é conseguida a partir de referências internas. É também descrito como um tipo de ficção literária (digital) que usa as capacidades de ligação do hipertexto, onde o leitor tem uma participação activa na história, ao escolher os links a clicar e que caminhos seguir.
[6]Termo utilizado para quando o hipertexto não está constrangido a ser apenas texto: pode incluir gráficos, vídeo e som.
[7] Uma obra de ficção que permite ao leitor participar na história ao fazer escolhas. A narrativa ramifica-se em vários caminhos através da utilização de parágrafos numerados ou páginas (e.g. Choose Your Own Adventure).

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