#0 Introdução “The New Media Reader”

Ao introduzir a publicação académica The New Media Reader, tanto Janet Murray como Lev Manovich ilustram as linhas cronológicas, práticas e teóricas dos Novos Media ou, mais concretamente e como Murray o refere, do medium digital.

Em “Inventing the medium”, Murray faz uma breve revisão da história e define certas peculiaridades dos Novos Media. Segundo ela,

“…the awe-inspiring representational power of the computer derives from its four defining qualities: its procedural, participatory, encyclopedic, and spatial properties” e “the most obvious property of the new medium, the one most clearly needed by the post-war world, was its encyclopedic capacity”

Embora a autora faça uma revisão excelente de diferentes ideias, o seu artigo acaba por ser mais descritivo do que analítico, mais histórico que teórico, e não leva a conclusões particulares.

Em “From Borges to HTML”, Lev Manovich, concentrado-se menos numa narrativa histórica, contextualiza a emergência da tecnologia digital e tenta definir os pilares do termo Novos Media, de modo a diferenciar as várias definições e demonstrar como estas se relacionam com a cultura, arte, sociedade e comunicação.

Concordo particularmente com a escolha de Manovich em diferenciar os Novos Media e a cibercultura como a sua primeira proposta para os definir – esta ideia inicial, para mim, é imperativa para compreender o resto do artigo, onde se foge ao fenómeno social que envolve a tecnologia e dá-se foco ao estudo do objecto cultural.

No entanto, consideraria importante, nesta introdução ao NMR, que o impacto dos Novos Media na sociedade, especialmente a nível de colaboração, fosse discutido num terceiro texto – não seria também, de certa forma, uma maneira de os definir?

New media enable new cultures to transform society. Now that the process has accelerated to the point where it is visible on a daily basis, most people understand that new communication media mean new ways of life. Indeed, it is now possible to see how new ways of creating and distributing symbols have made it possible throughout history for people to change existing cultural practices, and through these changes in the way people socialize, to transform societies. Howard Rheingold

O que apreciei mais no artigo de Murray foi a sua intenção de retratar o que vê como duas diferentes vertentes de envolvimento com os Novos Media e a filosofia dos Novos Media, simbolizada pelo artista e pelo engenheiro. De facto, não encontrei muito para discordar com a autora, uma vez que os seus argumentos se baseiam em torno de dois grupos sociais que a autora entende como elementos necessários no desenvolvimento nos Novos Media.

“The engineers see the challenge of our time, finding the key to survival in an atomic age, a challenge to our intellects. The world has become more difficult to understand, so we need better ways of thinking about it, more powerful methods of mastering complexity.” Murray

Também apresentada no artigo de Manovich está a sugestão de que os programadores de software são os verdadeiros artistas deste período da história. Acabo por me relacionar com o autor ao perceber a sua admiração pelos programadores – as pessoas que permitiram, em primeiro lugar, que fossem criados projectos artísticos, e que não são normalmente reconhecidos. Sem eles as ferramentas criativas, assim como os algoritmos aplicados nos projectos, não existiriam. Merecem assim tanto reconhecimento, ou ainda mais, que os artistas.

Manovich descreve os Novos media como duas forças culturais: convenções culturais e convenções do software de computadores, ou HCI (Interacção humano-computador). São, então, uma mistura entre velhas convenções e novas convenções de representação, acesso e manipulação de dados. O que entendíamos antigamente como “cultura” (narração de livros, etc.) são agora “dados numéricos”.

O autor ilustra de forma clara e faz um comentário interessante sobre a GUI (Interface Gráfica do Utilizador) nos computadores. Considerei este estudo analítico sobre o significado entre a sobreposição de imagens no ambiente de trabalho uma excelente observação que traz à superfície a ideia dos designers juntarem às representações convencionais de imagens os chamados “hotspots”, que adicionam funcionalidade à estética do ambiente de trabalho de um utilizador.

Outro ponto curioso encontrado no artigo de Manovich é quando refere que o termo Novos Media pode ser utilizado para descrever toda a tecnologia quando foi apresentada pela primeira vez, como a televisão ser um novo media nos anos 20.

“all creativity can be understood as taking in the world as a problem”

A partir desta citação de Murray acabamos por considerar, novamente, a questão se os Novos media são, de facto, novos. Se o conceito dos Novos Media vem a partir da criatividade e da criação de novas coisas para resolver outros problemas, a “novidade” dos Media vai tornar-se antiga à medida que novas criações e ideias são descobertas começam a substituir esses mesmos Media que foram criados numa geração anterior.

Manovich diz que é esperado, à medida que os Novos Media são controlados por software, que estes sigam três princípios: modularidade, variabilidade e automação.

Acredito que o aspecto mais importante que acabará por separar esta era das anteriores é o princípio da variabilidade. Um novo media não é uma coisa fixa, haverá sempre uma actualização constante resultando em novas versões desse mesmo media. Este princípio permite que o software se adapte e se torne variável.
Esta é a principal razão pela qual considero que as comunidades open source e a licença livre de software são extremamente importantes no desenvolvimento futuro de Novos Media, onde os criadores artísticos e programadores podem trocar e contribuir para novas ideias (e.g. Carnivore) para que se possa continuar a expandir o conhecimento e possibilidades das novas tecnologias.

Como o autor refere, os Novos Media mudam assim a ideia de autoria e de propriedade artística: a natureza participativa e de código aberto põe de parte a noção de um só autor, através da extensa colaboração, autorizando “várias cópias” – um grande número de estados diferentes do mesmo trabalho (e.g. Super Mario Clouds) – e da simbiose de autores. Este último aspecto, o da simbiose de autores, é fundamental para os Novos Media, onde raramente existe um observador passivo (como os observadores de filmes/pinturas) e, em vez disso, o observador é agora um “utilizador”, alguém que participa directamente no trabalho.

Manovich, no entanto, não parece estar disposto em admitir que as novas formas de apresentar dados continuam a ser formas para representar o mundo de uma nova maneira. O autor afirma que

The new avant-garde is no longer concerned with seeing or representing the world in new ways but rather with accessing and using in new ways previously accumulated media.

Considerem esta TED talk.  Em vez de usar gráficos de folhas criadas no Excel, Hans Rosling usa um sistema dinâmico para explicar e fazer passar a sua mensagem. Enquanto as estatísticas que mostra tinham a intenção de desmascarar “mitos” associados aos países em desenvolvimento, a natureza impressionante desta conversa foram de facto os gráficos que complementaram os seus dados.

Este novo processamento de dados não é só uma maneira de “re-apresentar” velhos media – está a ser utilizado para representações artísticas da realidade. Considero, assim, que Manovich passou por cima de uma semelhança óbvia entre os novos e velhos artistas avant-garde (como ele os considera) – o objectivo de representar a realidade de uma nova forma.

Embora existam várias definições do que são os Novos Media e em que consistem, acabamos por perceber que é necessário ter em conta que os Novos Media estão constantemente a mudar. Este aspecto torna a definição absoluta do termo difícil, mas também é o que o torna tão interessante.  À medida que a tecnologia avança, os Novos Media também o farão. A Inteligência Artificial e o campo de machine learning¹ estão constantemente a evoluir e as suas potencialidades para o mundo dos Novos Media são infinitas.

Palavras-chave: crítica; janet murray, lev manovich; introdução, novos media; definição; software.

Notas
¹Machine learning –  um dos ramos da AI (Inteligência Artificial), que diz respeito à construção e estudo dos sistemas que podem aprender a partir de dados, de modo a aperfeiçoar o seu desempenho.

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